terça-feira, julho 22, 2008

Memórias 1



A missão Sputnik IV (também conhecida como Korabl-Sputnik-1) foi a quarta missão Sputnik, lançada ao espaço pela União Soviética em 15 de Maio de 1960 do Cosmodromo de Baikonur. Transportando uma carga espectacular para a época de 4.540 kg, representava um passo importante dos voos pré-Vostok nos preparativos da URSS para colocar um homem no espaço. A isto adicionava-se o facto da cabine conter um manequim humano em tamanho natural, o que nos fazia sonhar com voos mais altos.
Só mais tarde em Abril de 1961, Iuri Alieksieievitch Gagarin haveria de ser o primeiro cosmonauta soviético e o primeiro homem a viajar pelo espaço, a bordo da Vostok I.
No entanto uma falha nos rectrofoguetes impediu a reentrada da nave Sputnik IV de forma controlada na atmosfera terrestre.
Tinha eu na altura cinco anos de idade e lembro-me de meu pai chegar a casa pela noitinha vindo da sua oficina situada na cave da nossa casa no Alto das Covas nº33 (antigo Largo Dr. Oliveira Salazar), muito excitado por ter ouvido a Rádio Moscovo (na altura era absolutamente ilegal sintonizar esta emissora) dando noticia do êxito desta missão. Em plena Guerra Fria, a contra informação americana, CIA, Rádio América, BBC, fizeram constar que a bordo seguia um russo que se havia sacrificado pelo comunismo. Ainda hoje recordo-me de ter ficado muito chocado com este assunto e de pensar quão grande deveria ser a força moral destes cosmonautas.
Lembro-me também de meu pai acompanhar as missões Sputnik, inclusive as últimas 3 Korabl-Sputnik através de uma grande antena linear instalada no nosso quintal e de um receptor da marinha americana em segunda mão, um daqueles que dotavam os quadrimotores de 2 andares do esquadrão de comunicações a operar na Base das Lajes.
Yuri Gagarin haveria um ano depois de colocar em estado de choque os americanos e de demonstrar a falsidade da contra-informação e o avanço tecnológico conseguido pelos soviéticos.
Teria pouco mais de 2 anos de idade quando aconteceu a primeira missão Sputnik (4 de Outubro de 1957). Nos anos subsequentes e com mais idade lembro-me de meu pai comentar muitas vezes este acontecimento. Como alto funcionário civil português ao serviço das forças armadas americanas (Navy) estacionadas na Base das Lajes na ilha Terceira, e responsável da maior confiança pela Estação de Comunicações dos Cinco Picos (cujo acesso era vedado ao público), a sua opinião era aquela veiculada pelos serviços secretos americanos: os comunistas sacrificavam tudo e todos para dominar o mundo e a sua política aero-espacial era apenas mais uma ameaça à segurança mundial.
Cresci neste “ambiente” da Guerra Fria com a crise dos mísseis em Cuba, a guerra do Vietname, os voos do avião espião U2 (cujo relógio atómico era sincronizado na estação dos Cinco Picos), a PIDE a tentar saber dos voos secretos de meu pai para a Argélia, Washington DC ou até ao NORAD no Colorado.
Mas estas serão outras memórias.

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