quarta-feira, julho 23, 2008

Memórias 2

Decorria o ano de 1965, tinha eu 10 anos de idade. A partir das missões Sputnik, o meu interesse pelo Espaço e pela Astronomia cresceu comigo pelas razões inerentes de quem tinha um pai, de profissão radiotécnico e responsável pela manutenção técnica do Centro de Telecomunicações dos Cinco Picos da Navy, que logo cedo me despertou o interesse pelas novas tecnologias da altura. Passava longos serões de inverno na “loja”, o reduto de meu pai, na cave da casa, onde proliferavam receptores e emissores esventrados, mostrando grandes díodos luminosos e fios multicolores montados em extensas placas metálicas e que desafiavam continuamente a minha imaginação. Muitos choques eléctricos apanhei na minha imprecavida e ingénua curiosidade de explorador destas tecnologias.
Recebíamos mensalmente a revista “Popular Mechanics”, uma das quais, para sorte minha, trazia o esquema de um “Sattelite Tracker” cuja construção era proposta em madeira e de simples concepção.
A Operação Moonwatch e o Ano Geofísico Internacional haviam sido lançados recentemente pelo Smithsonian Astrophysical Observatory. O anúncio do seu programa havia sido feito em conferência de imprensa a 11 de Setembro de 1956 (não me lembro disto, evidentemente!) pelo Dr. Armand N. Spitz, coordenador das observações visuais de satélites, tendo a Operação Moonwatch iniciado com o acompanhamento das órbitas dos satélites artificiais lançados pelos Estados Unidos durante o AGI (1 de Julho de 1958 e 31 de Dezembro de 1958). A Operação Moonwatch iria envolver centenas de astrónomos amadores e prolongar-se-ia nos anos subsequentes à custa da Guerra Fria.
Aquele projecto de Sattelite Tracker vinha de encontro ao meu entusiamo, e dito e feito, bastaram dois serões para que a sua concretização fosse realidade. Depois de “canibalizar” uns velhos binóculos de ópera de minha bisavó e de roubar a minha mãe um pequeno espelho dos seus instrumentos de cosmética, o Sattelite Tracker apresentava-se como mostra a imagem.



O Verão de 1965, excepcionalmente bom, com noites escuríssimas sem qualquer poluição luminosa (no Porto Martins não havia ainda luz eléctrica e lá em casa contentávamo-nos com a luz do petróleo ou de um “petromax” – só mais tarde tivemos um gerador a gasoil !), cativava-me longas horas na pesquisa e acompanhamento das trajectórias dos satélites que de longe em longe e raramente cruzavam os céus. A operação do aparelhinho era totalmente manual, bastando para o efeito deslocar o espelho mantendo-o alinhado com a trajectória do satélite artificial (o que de início foi difícil! ).
Na altura sentia-me parte integrante de uma grande comunidade de observadores e um espião não declarado das surtidas espaciais de americanos e soviéticos.

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