terça-feira, julho 29, 2008

Memórias 4 - Balões e OVNIs




Decorria o ano de 1970. Eu e o Jorge Pimentel Melo tínhamos um “laboratório” no sótão da casa de uma tia dele, situada na Rua dos Canos Verdes em Angra do Heroísmo, com uma aprazível vista sobre a baía. O nosso “laboratório”, um autêntico laboratório de físico-química, supria clandestinamente as suas necessidades na farmácia do tio (a Farmácia Pimentel na Rua da Sé), que nos fornecia quase todos os produtos químicos e alguns utensílios. Digo “quase todos” porque o laboratório do velho Liceu na Ladeira de São Francisco, também era um recurso frequente.
O “laboratório”, como nos era familiar, tinha três grandes janelas de guilhotina que davam para a rua e mais duas que situadas nas traseiras, davam par o quintal do imóvel. Tínhamos por nossa conta quatro grandes quartos, um dos quais era o “laboratório” devidamente acautelado e fechado à chave. Era ali que reproduzíamos todas as experiências que os livros de química do 6º e 7º anos do Liceu nos aconselhavam a fazer. E outras experiencias, das quais as mais perigosas tiveram a haver com a produção de produtos altamente explosivos (dinamite, pólvora e cocktails Molotov ).
Os outros quartos eram reservados para experiências de maior dimensão fisíca e um deles para as nossas jogatinas de xadrez com o célebre Leôncio, figura típica de Angra, de inteligência acutilante que ganhava qualquer partida de xadrez com os mais afamados jogadores da praça de Angra e que tinha por particularidade o facto de nunca calçar peúgas e usar um cordel a amarrar as calças muito puídas. Normalmente atraíamos o velho Leôncio, de longas barbas brancas que impunham respeito e eram mais próprias de um filósofo, com umas queijadas de feijão (as suas preferidas) feitas com esmero pelo Jorge Melo e umas garrafinhas surripiadas de vinho abafado da lavra de meu pai do Porto Martins.
Foi num desses quartos que erigimos o nosso primeiro (e último balão!) de papel a ar quente.
Tínhamos planeado, construir um balão logo no início do ano, para que durante as Festas de São João (as Sanjoaninhas) de Angra do Heroísmo fosse lançado.
O balão, feito com papel de jornal e cola de farinha – grude, possuía uma estrutura leve de verga que o sustinha elevado quando necessário. Passámos praticamente meio ano em colagens e demos-lho por pronto mesmo a tempo de ser lançado na data prevista.
Como o tecto do sótão se desdobrava em duas abas, sendo muito alto ao centro, onde passava a trave mestra, era-nos permitido ensaiar o balão. A fonte de ar quente, nada mais era que uma lata grande cheia de desperdício com petróleo, que ateado aguentava uns bons quinze minutos a arder, permitindo o balão elevar-se rapidamente, dada a sua estrutura leve.
Era a nossa primeira experiência nesta temática do uso da atmosfera e das suas propriedades físicas dinâmicas, que nos preenchia o imaginário e, para tal tínhamos que ter sucesso, pois o investimento em tempo e algum dinheiro (que era escasso na altura) não iriam permitir repetir a experiência com aquela dimensão (o balão tinha 3,5 metros de altura com um diâmetro de 1,5 metros).
Assim, cronometrada toda a operação de lançamento, combustível necessário e estudadas a fundo as melhores previsões meteorológicas disponíveis, optámos por fazer o seu lançamento no dia “maior” das Festas da Cidade, isto é, na noite do cortejo da rainha das festas.
Aproveitando o escuro da noite, deslocamo-nos para os cerrados situados junto ao Posto Meteorológico, onde havia suficiente espaço aberto para a nossa experiência.
Ao lançarmos o balão, por mais incrível que pareça, o vento mudou, e eis senão quando vimos o nosso portentoso e bojudo balão, quão avantesma fantasmagórico luminoso subindo nos céus em direcção à cidade de Angra.
Angustiados, temíamos que o balão por qualquer razão viesse a cair em cima de alguma habitação, incendiando-a ou provocando estragos de monta. Felizmente, nenhum dos nossos piores receios viu-se concretizado. O balão atravessou na diagonal toda a cidade de Angra indo provavelmente cair no mar.
O mais interessante de toda esta história, foi no dia seguinte termos sabido que corria a notícia de que Angra havia sido sobrevoada por um OVNI !! Soube da notícia no café-pastelaria Athanásio, onde se juntava sempre um grupo célebre de comentadores do dia-a-dia

2 comentários:

Anónimo disse...

Gostei muito dessa estória. Já agora, será que não possui nenhum registo fotográfico do lançamento desse balão?
Aguardo pela resposta.
Atenciosamente.
Francisco Silva
TURMA LUSA DE LISBOA
(Grupo organizado na arte e tradição de construção e lançamento de balões de S. João)

N/ e-mail: turma.lusa@hotmail.com

Anónimo disse...

ler todo o blog, muito bom